
Era apaixonado por papel desde pequeno. Adorava a textura, o cheiro, com linhas, sem linhas. Amava alucinadamente olhar de perto a marca da esferográfica espalhando tinta por aquele universo inacabável.
As folhas eleitas para histórias não servem para pintura. Papel não pode ser preconceituoso, tem que aceitar qualquer tinta. Algumas não entendiam esse princípio e precisavam ser descartadas. Como uma seleção do que presta o que não. Folha branca que escolhe seu papel não versa. Tem que ser inerte, pura, e aceitar de pernas abertas caneta ou pincel. Sexo no papel.
Talvez o papel fosse puro demais para as letras pervertidas que ele queria escrever. Não usaria seu idioma. Ia escrever a língua dita no corpo. Teclas escolhidas a dedo nos pêlos, gemidos,nomes e sinais dos picos. Linguagem de surdo mudo para falar na sua pele. Dedos incapazes de contar aquela história no teclado. As teclas dela eram mais quentes e úmidas. Desistiu.
Abandonou na mesa a história, a folha, o teclado, o cigarro mal feito, a xícara com um dedo de café frio, e foi procurar na cama um jeito dela não esquecer o êxtase daquele conto.