quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

QUEM DISSE?

Foto - Helena Almeida
Acendeu nos dedos a ponta do cigarro de palha que tinha sobrado de ontem e tragou forte a capa dos CD’s de Hendrix que moravam em cima da mesa de vidro no bico da sala. Roxo. Estava brincando com cores. Pensamentos não lineares. Ela, sempre, a mulher para quem mais havia escrito textos em toda sua vida. Bourbon e xarope de paz para acompanhar. Quem disse que não podia passar do ponto?

Música da rua, orquestra afinando, celular, bip. Diapasão de lá. Contagem. Desligou a luz e o telefone para se manter isolado dela. Quem disse que não poderia ser livre, e só? Ele e seu teto estavam apenas. Ela era a sua história. Longas noites passeando pela lanterna da lua e olhando reflexos. A cidade de São Paulo à noite tem luzes escondidas. Sozinhos em casa. Quem disse que não podiam passar do ponto? Sempre passavam.

Não se lembrava a última vez que ela esteve tão linda, de lápis preto escrito na pálpebra. Então de novo, não se lembrava mais dela. Reescreveu a história. Só faltava avisá-la que tinha transtornado o final. Agora eles podiam ir para longas noites na capital da Lombardia, na Ponte Velha ou em Jordaam. Não importa se realmente iriam. Queriam descobrir do quão alto poderiam cair.

Tudo errado. Não anotava nem o que escrevia. Perdia na fumaça. Fazia questão de enlouquecer aos poucos. Enlouquecia dela. A pupila branca no canto do céu lembra o brilho da íris quando ela morria prazer com o nome dele língua. Ele transformava pressão em fluído, quando sua boca estava nela. Ela, para explicar, grunhia uma única letra. As conversas do silêncio do toque recriavam o gemido dos dois.

Plantou amnésia dela, mas jamais perdeu a memória deles fazendo amor de chão. Fome e sede do gosto propagado no apoio da língua. Memória do cheiro de um par espalhado na cama de um.

Difícil foi deitar de pele sem ela, o resto do fim da história.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

PECADO CONSENTIDO


Foto - Francesca Woodman
Já tive ciúme do que jamais tive, já tive desejo que desejasse. Saudade do silêncio ofegante de nós dois. Eu, você, nosso chão de amor bruto e algumas garrafas de vinho cheias de medo do querer excessos. Cada eriço do seu corpo foram as minhas letras mais úmidas. É difícil durar uma vida sem, porque nada pode ser melhor que o eco do cheiro de nós dois espalhado em verniz de corpo nu.

Engarrafei esperança de que meus dedos alcancem o calor que acende dos seus pêlos, como alcançaram quando eu ainda não conhecia a sua pele. Sinto falta do jeito com que seus olhos me sorriem desejos. Encrespo. Tara da minha barba em seu pescoço falando vontades baixas no temporal agudo atrás da orelha.

Tempo curto de você e da ponta da língua afogada na fumaça, num reflexo de lagoa ou no rastro no meio do mato quando o centro da lua tocava o ponto mais alto do céu. Hortelã e laranja em dois copos com gelo, sentados em pedra de varanda até as roupas saírem para qualquer lugar do quarto e dois para qualquer lugar de nós.

Vontade enjaulada do meu nome na tua boca, presa em gemido engasgado. Cupidez. Pecado consentido para desenhar língua na nuca. Nó na espinha. Cobiças quentes, arrepio. Apetite de pele, abraço de corpo e do meu lugar no lado canhoto. Desejo recorrente. Eu queria você de volta mais vezes no para sempre.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

REGGAE E LICOR DE MENTA

Foto - Man Ray
Ainda não esqueci de como perder a respiração de você, mas quero ir a algum lugar onde o desencontro de nos dois seja uma historia diferente. Já viajei você sozinho, imaginando o que seria o corpo que eu nunca mais conheci. Tesão de faísca, tara de alagar, choque na espinha, amor de alma. Vou redescobrir todas as tuas vontades que arrepiam na ponta da língua para encontrar seus olhos de frente aos meus de novo num giro de mundo.

Lembranças do vestido escorrido no chão. Você se despiu de pele para me entregar seu interior pulsante, enquanto eu fugia da sua insensatez. Condenei-me correndo da prisão das suas pernas e me perdi, sem ter mais para onde ir. Desfantasiei você nas minhas fantasias do samba de nós dois, e senti saudade do meu reflexo nos seus olhos deitados debaixo dos meus. Eu gostava mais quando você éramos nós dois.

D'yer Mak'er. “When I read the news that it told me, it make me sad”. No mar do forte, setenta por cento de mim é água, os outros trinta vontade de molhar a cama onde você marcou nosso território como bicho fera mostrando que aquela área lhe pertence. Desafiei, morri em minhas vontades, e sem pensar, a única herança que guardei foi o receio de falar tudo que sinto para tentar você de volta. Não foi ciúme, foi posse, porque rolar de pele com você é tão bom que eu quero egoísta só para mim, acreditando como criança que a nossa eternidade um dia é cume.

Ainda gosto do gosto de nós dois, dos hábitos adquiridos, da escova de dentes de ponta cabeça na pia, do cigarro escondido na varanda, do reggae e do licor de menta no beijo, porque a sua lembrança quente não ameniza a minha vontade da sombra de pele que sumiu do espelho do seu quarto. Tentei apagar seu nome da minha história, mas não consegui apagar a história do seu nome em mim.

D'yer Mak'er - “Quando eu li as novidades que me contaram, fiquei triste” – Led Zeppelin

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SEM FILOSOFAR DESGRAÇA


Foto - Ansel Adams
Sem filosofar desgraça, lembrou que hoje, o notar dos olhos dela decretou o fim de uma história velha. Deletou ela dos dois ao som de reggae para parecer mais ameno. As lágrimas deles viraram letras num papel de saudade para esconder o gosto amargo do descomeço.

Só queria ver seus olhos para que eles pudessem me pedir o que sua boca não conseguiu. Para que pudessem enfeitar minha retina. Intenso foi nosso nome do meio. Não sabia que este seria o final, mas eu quis contar essa história para nós dois. Possessão foi resumo das minhas vontades.

Abriu seus dias na minha história para poder sentir nos dedos todas as nossas entrelinhas. Ouvir a sua voz sempre hipnotizou todos os meus desejos em um só, assim guardei nas suas angústias a saudade de dormir de pele com você. Aceitar é para os conformados e não para os intensos, mas teimar teimosia é insanidade.

Lembrar você me fez pensar nós dois. Minha cabeça foi longe de mim quando refleti em ponto e fim. Acabamento, arremate, conclusão. Fecha o livro e começa outro. Prefiro ficar imaginando tudo que pode ficar enquanto você não rechega, mas até lá, adeus.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

VONTADE REPETIDA

Foto - Richard Avedon
Saudade é vontade repetida do que foi perfeito. Perseguiu o mundo das molduras mais lindas para imprimir o cheiro do corpo dela na tela da retina. Aprendeu pelo planeta a usar os versos da única língua que queria compreender, a dela, e surfou as ondas de água quente e salgada que brotava do seu desejo. Erupção de vontades úmidas na boca que estremece a voz e contorce a espinha.

Perdeu a expiração de frente para sol laranja que afundava para acordar o outro lado do planeta. Consumiu a virgindade que havia comprado em numerosas prestações de insucesso e matou a história do que foi, para recriar a fúria de algumas horas, dias e meses ensopando a cama deles de sussurros da barba atrás da orelha. Eriço freqüente dos crespos lambuzados que haviam raspado tudo deles no singular. Vácuo, deslize, impregnação do ir e vir demorado. Continuavam sendo dois juntos inseridos neles mesmos pelo tempo de abranger um lampejo branco e a falta do ar. Flashes, sorrisos e gemidos altos. Prazer de você.

Idéias impuras do frisson em contrações descontroladas. Vontades que não cessam, apetite que não some. Lembranças de hoje, anseios de contínuo. O sorriso dela chegou com a voz que havia sumido. Intumescimento, emudecimento, canto fúnebre do brado de quase morte em múltiplos jorros. Vivia!

A falta dela era a falta dos dois e o apetite dele nascia dela todos os dias no lençol vazio. Entre suas pernas sentia o arrepio da alma. Passou dias lutando contra o eco e sabia conscientemente com o aperto ansioso da boca do estômago, que saudade do que é perfeito, é vontade.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CONFUSO

Obtuso, indigesto, obscuro. Sentimentos de um peito fraco que não possui potência suficiente para lavar sentimentos onde só habita a razão. Ambíguo, duvidoso, impreciso. Coração que não bombeia sangue puro.

Foto - Sebastião Salgado
Atrapalhado, perdido, confuso.  Será o cume de um monte inatingível ou apenas falta do equipamento correto? O impossível é só julgamento? Misturado, desordenado, caótico. Retrato de tudo que fui, separando diuturnamente sentimento e razão. Cada um em seu ninho, de onde jamais saíram para se olhar. Dúbio, indigesto. Todas definições para uma única piedade.
 
Gruda sua pele na minha mão, fica comigo perdido e espera um pouco. Tenha paciência de mim. Minha lua de luz própria ainda vai iluminar o caminho de nós dois. O seu, o meu e o nosso. Continua. Se pudermos viver agora, viveremos sempre, até onde der. Permanece para mim sem procurar ninguém para culpar, eu topo. Submissão e vontade de você. Possessão. É muito difícil dançar colado desse jeito, falta ritmo de longe. Desperdício.

Vestiu os óculos da felicidade, deixou de enxergar o conto recorrente dos dois e seguiu apenas seu contentamento. Hoje eu tenho medo de ler a sua história, só porque posso não gostar do final. Ignoro meus desejos, fugindo de você, para termos nós dois por mais tempo. Quero escapar de mim para me esconder na sua biografia. Pensamentos lascivos de uma tarde com a sua voz ecoando no sofá onde você derreteu de punhos amarrados para mim. Rasga.

Não iria ver estrelas nem sentir borboletas, só nuvens que escorrem água e fogo. Prenderia a respiração dos olhos até abafar o tato de tanto uivar gozo. Você pode me ouvir? Ainda escrevo com você uma história repetida, sem ponto final, mas eu ainda não confio em mim amando você, então pára de fazer eu me perder de mim, me dá uma amostra e se mostra inteira, prá eu poder te conhecer.

sábado, 25 de agosto de 2012

ESTAMPADO NA PELE

Foto - Mario Cravo Neto
Entre o arrependimento e a certeza, sempre preferiu o risco. Olhou no fundo do copo para encontrá-la. Encheu a boca para sentir seu gosto mas só o álcool forte falou na língua. Tinha gosto de barato. Queria matar com veneno de bar derramado em dosadores de mil gotas o que restou dela em seu corpo.

Ela tinha estampado letras na história dele como unhas na carne. Marcas com desenho permanente de uma noite de raiva. Tatuagem. Saudade a gente só tem do que é bom.

Hoje estavam livres do sorriso de todas as promessas eternas que haviam deixado de cumprir. Espalharam pelo mundo e pelo rosto. Desperdiçaram. Pouparam-se para aproveitar mais tarde.

Música, fumaça e álcool. Combinação perfeita para lembrar e deslembrar dos dois. Continuava esperando no tempo se escondendo dele mesmo entre os rins dela. Agonia. Aflição. Angústia. Falta de ar na garganta até voltar a respirar sorrindo o arrepio na espinha. Cicatriz. As conversas do silêncio do toque recriavam o gemido dos dois.

Queria acreditar sem se mover, mas precisava fechar os olhos. Ouvir noite com letras sussurrando palavras, derramando histórias. Assistia seu nervosismo no espelho na hora de dizer boa noite em cinco lágrimas do vidro. Queria se acalmar dele mesmo para poder encontrar os olhos dela no sono que não dormia mais.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

CALAFRIO

Foto - Nair Benedicto
A nuca estava na fechadura da porta de entrada. Não teve tempo de cair por completo. O cachorro dormia e o violão silenciava no recamier. Do lado direito cavalos carvão davam o tom cinza. Na parede do lado esquerdo o branco e preto. Pensou em palmas puxando forte a alça de tara para encostar a barba atrás do brinco e falar todas as coisas mais baixas que imaginava fazer com ela. Sussurrar “baixices” dentro dos ouvidos. Arrepiar todos os pêlos e inundar alguns. Pecados, perversões, tesão, respiração. Não precisava precisar mais.

Se jogou na poltrona de solteiro que ficava exatamente a quase meio passo do bem-vindo e tentou pentear os braços. Recostou, respirou fundo e tirou da gaveta da mesa de centro que ficava no canto, um cigarro de roça. Não tinha isqueiro. Não ia sair dali e tragou apagado mesmo. I hope that I don't fall in love with you (1) repetia tocando na cabeça. Queria não querer tanto. Pedia que a música abaixasse lentamente para que aparecessem os letreiros. Esperava poder se esconder dela exatamente entre os seus rins, e então passear o gosto no rosto para nunca mais esquecer o arrepio que sentiu na alma. Metade dela na boca e a outra metade espalhada no colchão.

Todos os seus vícios corriam sempre para o pedaço do mesmo mundo, aquele que sorria alastrado em beijos e passeios arrepiadores de vértebras. De dar nó nas costas. Eriço que começa na base da coluna e sobe pelo resto do corpo, contorcendo para sacudir a vontade para fora. Frio, medo e o toque das pontas dos dedos deslizando devagar pelo ar dos cabelos do desenho de corpo. Calafrio.

Senhor absoluto das suas vontades e desejos, mentia para dentro e a falta só aumentava pelo excesso dela na cama dele. Aceitaria ser chamado de canalha em seu chão, pois o suor das baixezas seria o menor dos líquidos dos dois. Precisou morrer de si para ser feliz adorando todas as mulheres no escorrer daquela uma.

(1) Espero não me apaixonar por você – música de Tom Waits

terça-feira, 7 de agosto de 2012

OLHO SECO

Tinha medo de chorar. Respirava fundo com a mão na cabeça pensado no que já tinha virado fato de sonho. Olho seco. Não produzia água nos olhos. Não chorou mortes, não chorou amigos, preferiu bebê-los. Não tinha reação à possibilidade de ganhar uma perda. Psicopatia ou excesso de sentimento?

Afundou suas emoções na água salgada e jogou praia em cima. Gostava de visitar de vez em quando. Era lá que fugia do olho do ombro que encaixava para escorrer. Foi prá lá que fugiu.

Havia se livrado das perguntas dele mesmo. Síndrome de Burnout queimava. Exaustão emocional. Insensibilidade a tudo e a todos. O fogo na casca consumia percepção, anseio e emoções. Faltou energia. Acabou a pilha.

Cacto. Mescalina. Indutor de ilusões, visões e profecias. Transe temporário controlado. Panacéia. Remédio para todos os males. Dentro do estômago um protetor que aconselha e responde todas as perguntas.

Cultivou saudade e colheu o gosto permanente do vazio em sua cama. Escolheu não pedir, mas a fantasia dele mesmo não servia mais. Soberano das suas mentiras, engolia verdades, e mesmo assim resolveu não chorar, simplesmente porque preferia sentir medo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

HIPERMNÉSIA


Queria esquecer, não conseguia. Não por falta de vontade mas por patologia de memória. Aumentava a capacidade de recordar fatos que existiriam melhor se não existissem. Alteração metabólica ou stress de sentimento? A dor no peito não explicava.

Uma brisa fria soprava o corpo da noite e o céu negro comia a lua aos bocados. Sorriso do gato de Alice. Brilho intenso e fulgor singelo. Fitou o horizonte, que tinha desenho de tara, quase convidativo ao abandono absoluto. Nada o permitia esquecer de tudo. Queria as memórias de longe para escolher as que iriam permanecer. Podia abrir mão de todas para amenizar a angústia. Vivia o avesso de seu desejo.

Recordava o passado mais que presente vivo e exato. Evocava lembranças compulsivas e desnecessárias. Sintomas cognitivos de hipermnésia total e permanente. O ontem tinha nomes, datas, números e vontades de hoje. Em cada canto da visão suas lembranças. Nos casacos do armário, nos livros, filmes da prateleira e nas mesas de saquê, vinho e chá de hortelã que acompanhavam cigarros feitos a mão. Nas fotos clicadas no hipotálamo e no movimento lento do ir e vir dos dois em harmonia. Arco rígido do violino roçando as cordas do seu corpo. Escândalo da música e a música dos gemidos altos. Emoções, sexo, fome, sede e temperatura. Não podia esquecer. O tempo herdado não era passado.

Como tudo aquilo acontecia? De que forma ela se tornou permanente? Jogou no lixo e deletou tudo que podia na esperança de esquecer. Desesperou. Calma. Eram perguntas sem resposta, que poderiam se transformar numa luta vã, não fossem conscientemente não respondidas. Apenas o sentido, a vontade de ter e ver, e a natureza conjurando a favor da saudade. Estaria perdendo a sanidade?

Forçou-se a despedaçar seu eu, deixando ali a brisa fria e a depravação dos olhos que misturavam afeto, carinho, paixão, fascínio, tesão, confidência, respeito, admiração e dependência. Todos obstinados a fazê-lo doente, não esquecer nem por um segundo.

terça-feira, 17 de julho de 2012

AS SUAS MARCAS SE FORAM

Taquicardia. Vasculhei o tempo e não consegui te encontrar quando troquei minha cama e seu cheiro, gosto e matiz se perderam.

Ainda achei sinais estampados que você abandonou. Memória quente de vinho, saliva e gozo. Numa camiseta minha dependurada no mancebo, restou sua silueta, apontada no peito por dias e noites de tesão, junto com a mancha do seu último prazer e com o eco do seu gemido.

Suas roupas pequenas não estão espalhadas pela história do chão, meus pés estão frios e seu corpo nu já não monta deitado no meu. Seus cílios não amanhecem sonolentos para mim, e sua mão macia já não me acaricia, fazendo meu corpo tremer, retorcer e contorcer.

Anosmia causada por defeito de continuidade. Desesperança quando me perdi do olfato que experimenta você.

Síndrome parcial que me fez esquecer a fragrância do velho. Quarto novo com cheiro de lavanderia e lembrança esparsa do aroma do tempo em que você esteve ali, logo ali. Vontade da fase crescente da lua para afagar com a boca todos os desenhos do seu corpo e te sentir a lembrança.

Ageusia. Perda das funções gustativas. Troquei minha boca e seu gosto foi embora com o meu desejo.

Morri de mim, daltônico de vontades, e no fim depois do fim restou a invenção de você. Mulher invisível que eu improvisei já que os perfumes naufragaram, o toque é do espaço branco, a excitação da sua pele está longe demais, e seu gosto é sensabor.

Hoje, colidentemente você é passado, já que as suas marcas se foram junto com a água purificadora, incolor, inodora e insípida que transpirou, evaporou e lavou meus lençóis.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

NATUREZA NUA

*foto by Lua
A natureza estava nua. Despida de pudores e coberturas, com os seios à mostra apontando na direção do prazer eriçado de bicos que ardiam contraídos em pedra. Sufocou com a inspiração invadindo sua boca e envolvendo seu corpo em pele e dedos úmidos nas piscinas de uma ilha mais que bela. Adão e Eva nas terras de Oxossi. Estavam sós como no princípio.

Ondas de excitação, entusiasmo, vigor e melado. Como espectadores dois pares de olhares numa só direção. Morderam-se. Engraçado terem demorado tanto tempo. Imaginação, desejos, tara e vontades. Era difícil entender o que viam através das pupilas. Queriam enxergar  para dentro e
acharem-se depois de muito chão.

Cataram poesia de rainhas e sorriram momentos em que as palavras sobravam. Vontade de pegar, apertar e rasgar até escorrer seiva da árvore dos frutos que alimentam a fome. Acharam sem procurar e sentiam sem querer, mas queriam. Entorpeceram.

Nasceram de novo no caminho do sol partindo para dormir nas águas do mar. O universo de dois era muito mais. Não queriam ser um só. Inventaram novas estradas e perderam-se nos caminhos que os traziam de volta.

Ele ingressou naquele estado mental onde o homem aguça os ouvidos para começar a enxergar com o coração. Ela lapidou a boca para morder a consciência, e assim puderam se encontrar no meio do caminho, deixando guardada para eles a natureza nua, que talvez tenha sido apenas mais um paraíso.

terça-feira, 19 de junho de 2012

SUOR

Uma gota de suor espesso que desliza pelo poro que se abre gentilmente, para deixar escorrer a quase inconseqüência de uma noite que se repete na noite seguinte, e na manhã depois.

Suor intenso de um amor bruto. Ela gostava assim. Forte, apertado nas falanges e deliciosamente obsceno. Molhado pelo mesmo suor que banhava a cama nos dias que ela aparecia de surpresa mandando. Então abre a porta.


Trilha sonora. A música transitava na espinha. Dava para sentir cada nota sempre que o bico da língua passeava bem devagar pelas costas do pescoço. Umedecia. Sai da garoa e vem prá chuva comigo. Contou um conto em uma frase de sofá, e ele foi embora com a história inteira para escrever depois aos bocados e mordiscos.


Resumo complexo de alguns dias onde muita coisa acontecia. Não cabia numa página só. Tinha que escrever pelas paredes já que ela dava poesia para isso. Poesia para ser usada inteira. De ponta em ponta, de pernas nos ombros, e um dia de terno e gravata.

Saíram de lado a lado, ela para um vértice da bússola e ele para a outro, dois juntos neles mesmos sem perder a identidade, com uma vírgula plantada na cabeça, para nunca mais esquecerem das gotas de suor que deslizam gentilmente para se deixar escorrer na quase inconseqüência de alguns dias.

sábado, 9 de junho de 2012

ADMIRO REESCRITO

Admiro o que tem dentro da sua cabeça, mas admiro mais o que não tem. Olho seu raciocínio, sua inteligência e sua transparência de sobrancelha na sobrancelha. Mas não posso desdizer que primeiro admirei suas coxas grossas e bem torneadas que flutuam desenhando contornos arredondados de mulher com sabor. Admiro seus seios esboçados no biquíni que me abraçam com os bicos quando eu escorrego as mãos por sua cintura com gosto de mar. Admiro sua sagacidade, complexidade e riqueza de raciocínio capaz de fazer piadas freqüentes que miram sem nenhum pudor personagens marginais da nossa história. Contemplo seus conhecimentos e princípios, além de admirar a silhueta da sua sombra que dança contra o sol que rola para afundar num colchão de nuvens tenras, no ritmo delicioso do seu caminhar. Adoro suas filosofias intricadas e as de botequim, e principalmente aquelas que falam de mãos, bocas, toques, seduções e volúpias. Dedos, línguas e pêlos. Venero sua forma de lidar com adversidades, suas forças e fraquezas, que a concebem cada instante única e imprecisa. Contemplo seus olhos quentes, quase perversos, e a visão que eles ofertam para dentro das partes mais gostosas do seu corpo, flutuando com as pontas dos dedos as tuas curvas, que ficam cada vez mais arrepiantes, quando o vento das minhas palmas voa pela janela correta. Adoro seu abraço colado de corpo e o toque quente da sua pele eriçada na minha. Admiro você inteira, de ponta a ponta, de um rim a outro, exatamente como você é, assim, desse jeito.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

CARMIM

A surpresa da vida havia começado dois dias antes de vestido vermelho perdida no meio da rua. Quando viu já tinha olhado e parado para reparar o conjunto. Sensação estranha para alguns dias que ainda não sabiam, seriam carimbados para sempre no passaporte daquela ida.

Personagens de uma história que ainda estava na orelha do livro recém aberto. A noite contribuía e as estrelas renderam olhares trocados e vontades cujas tentativas de encobrir as tornavam mais evidentes. Ela confessou saber.

Desejo. Tesão freqüente a cada língua e abraço constrito. Beijo afogado, molhado, salgado. Não dava para ficar muito tempo longe daquela boca cheia de sorrisos e contos de uns 30 anos. Uniram com cola.

A temperatura de quase inverno trazia na névoa da boca instintos de prazer primitivo. Agarrou o corpo dela pelo braço e com o tato das palmas e das pontas dos dedos sentiu o branco da pele corar com o passeio da barba pelo pescoço. Eriço ofegante.

Ansiedade dobrada e dividida em sessenta miligramas. Vinte para ele, quarenta para ela. Passeio na rua do meio, flores que se fechavam à noite, espelho de mar. Precisavam dormir.

Mais noite, mais dia. Caminharam sobre a água e seguiram juntos desde o nascer no leste até o poente no oeste. Universo de conjunções e gostos complementares. Fazer coisas de um a dois e aprender dinâmicas sem esforço. Fluir. Não queriam ir. Retorno duro para a babilônia com o manto do mesmo céu da despedida.

Com ela tatuada na retina, na manhã de sol da cidade abriu a janela para tentar ver o mar, e tudo que conseguiu enxergar foram os olhos dela dizendo que não queria ir embora daqueles dias.

Tremeu com surpresa e procurou algo para explicar. Terapia cognitiva. Uma palavra, uma imagem. Como os selvagens antes de escrever pintou, mas nem com o desenho feito na rocha com tinta carmim conseguiu explicar o nome disso.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

ERAM TODOS IMPOSTORES

Começou com uma incapacidade temporária de reconhecer alguns rostos, apesar de viverem embutidos em seu mundo desde há muito. Causou aflição, desconforto, esqueceu. Procurou um médico que não identificou a princípio, o seu. Não sabia o que havia.

Voltou para a sua casa para tentar esquecer quem realmente lhe causava tortura. Hibernou, comprou sono em gotas, fumou, comeu, respirou. Não era raro esquecer de expirar. Dúvidas e questões amarradas na mesma decepção do que jamais iria acontecer.

Foi quando percebeu que algo estava errado. Delírio, paranóia, crença ilusória, erro de identificação. Todos haviam sido substituídos. Não eram eles mesmos, eram outros vestidos de iguais. Ela não era ela e por isso tudo estava do avesso. Eram todos impostores, cópias idênticas aos originais. Duplos. Por quê? Esquizofrenia paranóide? Desconfiou.

Precisava desesperadamente de mais um gole. Teriam sido sequestrados e substituídos por cópias irritantemente iguais? Tão iguais que até poderiam ser eles mesmos? Não eram. Tinha certeza que eram falsos. Neurose absoluta.

Talvez até os móveis não fossem os seus. Talvez fossem cópias assim como as pessoas. Cenário montado para enganá-lo. Estava em perigo. Precisava descobrir onde estava seu verdadeiro mundo. O mundo com ela. O universo onde todos os impostores fossem originais. A sua orbe onde tudo era verdadeiro e não aquela farsa montada para parecer realidade. Precisava fugir.para encontrar. Como?

Precisava de ajuda e não podia pedir a ninguém. Todos eram espelhos dos seus. Falsificados. Estava preso ali para sempre. Gritou e rasgou o peito com as mãos. Desespero, desesperança, depressão. Dá prá existir assim?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

PARÁGRAFOS CURTOS


Fechou a porta para o lado de dentro da sala, três passos largos e estava na sua cadeira. Recostou, afundou as costas e esvaziou os pulmões para fora. Virou-se levemente para o computador, esticou a mão esquerda e pegou o cachimbo. Com a direita o isqueiro. Clique, ou qualquer coisa parecida. Fogo e Fumaça.

Lembrou-se que escrever parágrafos curtos em contos facilita a leitura. Aprendeu. Nem sempre gostava de parágrafos. Mais um gole de refrigerante verde que estava quente em cima da mesa. Precisava molhar a boca. Servia.

Não vivia sem música. Os ouvidos pediam respirar. John Butler Trio. Letra de música e vontade misturavam. Não sabia quanto tempo podia viver sem. Estava acelerado, mais um trago, mudou a música, estava sozinho. Bipolaridade.

Escrever não estava ajudando. Terapia. Talvez sim, talvez só um personagem. Não se esqueça de lembrar que eu avisei. Isso machuca, as vezes, é só entender. Na grande maioria das vezes não entendem. Tem horas que preferia ficar sozinho, mas não queria dizer que gosta menos do mundo. Simplesmente não suporta. Isolava-se e gostava. Deserto, montanha, só e só isso. Viajava em qualquer lugar.

Saiu da música com alma leve. Três e doze da manhã. Bala de canhão. Oceano. Forte de Santa Bárbara. Proteção da Vila de Nossa Senhora do Desterro. Era agnóstico pelo excesso de religião. Não sabia onde estava indo, mas para ele, aquilo, naquele momento, estava bom. Ia esperar a campainha tocar qualquer dia.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

ESPORÃO DO CENTEIO

A cena era dantesca, bizarra. Ácido lisérgico para uso massivo e fins terapêuticos, espirituais e recreativos. Movimento psicodélico em microgramas. Frio, calor, dor de cabeça, analgesia, agitação mental, relaxamento, insônia, pupilas gordas. Languidez, fraqueza, Sensações de extrema alegria e felicidade, medo e angústia.

Um rosto vermelho com chifres pontiagudos surge da fumaça sorrindo com seus dezesseis dentes e olhos diabolicamente luminosos. Fumaça de rolo, flores de cereja. Símbolo de beleza feminina, sexualidade, símbolos do amor em código de homens cuja honra transcende a matéria. Murcharam, enfraqueceram e foram espalhadas pelo vento. Morte perfeita para o guerreiro que viveu com consciência constante. Aceitação da filosofia da natureza transitória de existência. Um bom dia para morrer. Lembrança poderosa de vida passageira. Um hino quase fúnebre.

Outras flores roxas submergiam no rio durante a noite para florescer novamente durante o dia. Expansão e elevação espiritual apesar das raízes fincadas na lama. Busca incessante da luz, desabrochar acima da sujeira. Crescimento. Morte e ressurreição de Osíris. Transforma-te a ti mesmo escrito no livro dos mortos. Individualismo e força. Neblina.

Sete caveiras enfileiradas encaram o vazio de quem passa a sua frente. Umas escondidas, outras aparentes e orgulhosas de suas formas eternas em osso sem carne. Suturas cranianas aparentes. Sorrisos que deixam agnósticos desconfortavelmente seguros. Receio, temor, asco, aversão, ódio, amor.

Tatuou a bad trip na pele, para nunca mais esquecer onde esteve perdido no intuito de se encontrar, e encontrou alguém com quem estava disposto a se perder em outro lugar.

sábado, 14 de abril de 2012

SURDO DE PENSAMENTOS

Era desprovido de sentimentos. Fez um acordo com a vida e ela arrancou da caixa do seu peito seu leque de emoções. A mesma vida que tinha chutado a sua cabeça na ladeira tinha feito um favor. Ele não sentia mais nada. Estava amortecido com cheiro de clorofórmio. Dava prá ver o céu negro nos seus olhos.

Tinha desprezo absoluto por qualquer regra, indiferença à emoção e repulsa a sentimentos. Transtorno de personalidade dissocial. Psicopatia, sociopatia. Ausência de empatia. Indiferença.

Incapaz de sorrir para um sorriso da mesma forma que era incapaz de sorrir para uma desgraça. Não era ruim nem bom. Não era, não sentia, mas tinha lembrança de sentir. Dor. Muita dor. Angústia, psicose, delírio, amor, dor. Morreu pela última vez até deixar de sentir. Não podia sequer dizer que era mais feliz sem sentimentos. Não sabia o que era felicidade.

Desvio de comportamento. Dissociação. Perversão, psicose, neurose. Abuso e atordoamento permanente. Vontade de gritar sem fazer barulho. Abusou do álcool e de substâncias alegres. Foi abusado.

Não tolerava frustração e sua vontade de matar alguém com as mãos crescia com a sua curiosidade de ver alguém morrer. Obscuro. Nulo. Indiferente, apático, passivo, neutro. Surdo de pensamentos.

Impassível. Não ria, não chorava, e a vida não fazia diferença. Não vivia, mas passava todos os seus dias atrás dela, escondido nas travessas, do lado de fora das janelas e no corredor paralelo do supermercado, admirando seu corpo delicioso e imaginando o que poderia fazer para sentir de novo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ESSÊNCIA DO PECADO

A essência do pecado. A história deles era a nossa história. Tesão, tara. Quem nunca sentiu? Maria Madalena. Fascínio agudo por qualquer coisa, por bundas e peitos firmes que olham para o teto. Excessos sempre justificados. Ganância por exageros. Abusos, descomedimentos. Quem nunca sentiu?

O que é bom dura pouco. Só prá quem cansa ou enjoa rápido.

Gula, preguiça, avareza, luxúria, ira, inveja e orgulho, ou vaidade? Tudo numa só presença. Sou devorador do seu corpo, mesquinho de sua companhia, adoro entrar e sair da sua alma com raiva de quem ama. Cobiço seu reflexo e tenho soberba nas entranhas pela arrogância da sua beleza que emerge seu rosto cada dia mais insensato. Pintura com biografia para quem não a conhece de perto. Encantamento, hipnose.

Impossível descrever sem sentir. Passar a mão, deslizar pele e lamber a essência do nosso deleite. Saudade mesmo quando você está uma parede acima, uma cozinha abaixo ou apenas um pé do lado. Necessidade de presença permanente e toque em dez pontos que ressaltam, arrepiam ou intumescem.

Peco você nos dedos e na mente. Vontade de ter. Quem nunca sentiu vontade de ter? Até os castos têm desejos. Mas que tipo de desejos? Quem nunca pecou por vontade? Sete em um só. Gosto. O sabor dela, ganância pela exclusividade, destempero pelo desejo alheio. Culpa?

De frente para o espelho, quero seus cabelos nas mãos e seu nome na ponta da língua para dizer no pé do seu pescoço, que essa, é a essência do pecado.

sábado, 24 de março de 2012

ESCOLHIDAS A DEDO

Deletou a folha branca da tela. Dava nos nervos não poder arrancar a folha em branco da máquina, amassar e jogar no lixo debaixo da mesa. Tem folhas que não aceitam histórias. Nasceram para ser brancas e morrer brancas. Que pelo menos morram amassadas essas malditas que são papel pela metade.

Era apaixonado por papel desde pequeno. Adorava a textura, o cheiro, com linhas, sem linhas. Amava alucinadamente olhar de perto a marca da esferográfica espalhando tinta por aquele universo inacabável.

As folhas eleitas para histórias não servem para pintura. Papel não pode ser preconceituoso, tem que aceitar qualquer tinta. Algumas não entendiam esse princípio e precisavam ser descartadas. Como uma seleção do que presta o que não. Folha branca que escolhe seu papel não versa. Tem que ser inerte, pura, e aceitar de pernas abertas caneta ou pincel. Sexo no papel.

Talvez o papel fosse puro demais para as letras pervertidas que ele queria escrever. Não usaria seu idioma. Ia escrever a língua dita no corpo. Teclas escolhidas a dedo nos pêlos, gemidos,nomes e sinais dos picos. Linguagem de surdo mudo para falar na sua pele. Dedos incapazes de contar aquela história no teclado. As teclas dela eram mais quentes e úmidas. Desistiu.

Abandonou na mesa a história, a folha, o teclado, o cigarro mal feito, a xícara com um dedo de café frio, e foi procurar na cama um jeito dela não esquecer o êxtase daquele conto.

domingo, 18 de março de 2012

TATEANDO NO ESCURO

Desesperou-se quando abriu os olhos e não viu nenhuma luz. Escuro absoluto. As pernas dos olhos não se mexiam mais. Estava paralítico da visão. Tateou e encontrou as paredes nas pontas dos dedos. Podia se mover. Violino e bandoneon. Ouvia pelos poros.

Não se lembrava muito bem de como tinha ido parar ali, mas lembrava dela. A boca de algodão passeando por seu corpo ao norte. Seios firmes e arrepiados acompanhavam a circulação enquanto o calor do miolo das coxas molhava as dele. Contorção retorcida na coluna.

Desdobrou os joelhos para cima acompanhando o desenho liso das paredes em vê. Três passos e bateu num móvel baixo. Talvez a cama estivesse ali perto. Talvez fosse o quarto. Talvez ela estivesse ali. Talvez fosse uma brincadeira. Talvez tenha sido o ácido lisérgico. Estava simulando esquizofrenia, ou estava seu cérebro mais acessível?

Abaixou-se e descobriu o lençol e o travesseiro. Acalmou-se por um momento pois seu corpo já estivera ali, talvez. Tateou pelo espaço e encontrou o desenho macio e redondo de sua bunda debaixo de uma pele de tecido frio. Suou.

Subiu a mão vagarosamente pela cintura que ele havia apertado com as palmas, a lateral do seio completo e pelo ombro delicado de gente pequena, buscando encontrar seu pescoço com as unhas e sua boca com a língua.

Morreu catatônico quando sentiu seu beijo gelado e a falta de alma em seu corpo.

terça-feira, 13 de março de 2012

VOLTANDO PRÁ QUALQUER LUGAR

Estava voltando para qualquer lugar naquela hora. Eram duas e quarenta da madrugada e ele estava arrumando as malas para caminhar só de ida. Travesseiro, os casacos pendurados nela, as havaianas e as facas da cozinha, afinal eram dele e era mais seguro.

Que mais? Separou os livros de arte pois havia um vínculo afetivo. O violão que morava no sofá, roupas de cama e a cama iria buscar no dia seguinte. Também era dele. Ela que comprasse uma nova ou mandasse buscar a velha na casa da mãe. O colchão havia sido o motivo da briga. Ele tinha dormido com muitas naquela cama e ela queria uma nova. Ele havia comprado o colchão há apenas seis meses. Quem ama não faz isso?

As fotos ela mandava depois num pen drive. Deleta. Ela estava separando um monte de caixas. Ele nem sabia que tinha caixas de coisas. Colocar aquilo tudo no carro não seria fácil, mas foda-se. Caminho sem retrovisor.

Engole o espelho e se olha por dentro. Estilhaça. A beleza acabou quando ela cravou as unhas em seu rosto e guardou as mãos no bolso com carne presa nos dedos. As marcas dela estavam no sangue dele. As dele nos pêlos dela. Lavar o cheiro com água era fácil. O problema era tentar apagar as digitais que ele deixou entre suas pernas.

Escova, pasta de dente pela metade, Prozac, Frontal e Rivotril. Tudo dela para ele usar. Suportar. Não mais. Ansiedade, pânico, explosão e catarse. Toma remédio que passa. Purificação, evacuação, purgação. Terror do homem rústico que passou da boa para a má estrela. Iria comer seus frutos, recolhidos do pátio da escola, com outros heróis como ele. Só. Suportou mais do que cabia.

Agressões, gritos. Ouviu o que não queria. Talvez fosse melhor ter olhos de Édipo a correr o risco de vê-la com outro, ou talvez fosse mais simples trocar o colchão. Já era tarde. Perderam o retorno numa viela de muros caminhando em linhas avessas.

Saiu com um estalo metálico e um tremor no punho deixando o amor fumegante no cinzeiro. Sumiu, largando no caminho um rastro de horror e calda vermelha que ninguém teve coragem de seguir para saber onde ia dar.

domingo, 4 de março de 2012

CONTRASTE DE BRANCO NO BRANCO

Pânico eufórico inflava os pulmões. A ansiedade tomava conta do peito e a respiração afundava até os pés. Explosão de luzes. O mundo em slow-motion.

Era estranho como naquele momento os olhos funcionavam defeituosamente voltados para os detalhes. Eram incapazes de olhar uma paisagem sem picotá-la em tiras de minúcias.

Não queria saber da casa, procurava sempre a porta dos fundos. Imaginava que talvez os anjos, se realmente existissem, teriam uma posição melhor para registrar história. Tomada de um ângulo que ninguém havia experimentando antes. Inovação. Proteção. Fuga.

Perturbava-se com a maioria das pessoas que não conseguiam entender o contraste do branco no branco, com os vultos bizarros cujas caras derretiam e com animais que maltratam animais.

Um dragão que entrava e saía do mar e carregava com ele flores, um peixe e um demônio do bem, cuja máscara espantava os maus espíritos, faziam parte do protetor de sua existência, ele mesmo.

O horizonte avermelhado dava ânsia, de que não sabia. Viu fantasmas e recebeu ordens para sentar-se direito e acompanhar o encontro do mar com céu. Sacrificou sua sanidade para viajar e teve medo de nunca mais voltar.

Precisava de conforto. Deitou-se no colo dela de baixo para cima, sentiu o aconchego de seus seios quentes contra o rosto. Tentou abraçá-la pelo sexo mas não pode. Suas vontades haviam sido suprimidas. Carinho na têmpora e uma lágrima pingada.

A respiração encurtou, faltou espaço no peito, o abraço que já não havia foi ficando cada vez mais apertado, soluço viscoso e gosto de ferro na boca. Um suspiro e o ar não veio. Olhou o brilho do adeus e o desapontamento. Pediu socorro e ela não podia fazer nada, a não ser se despedir trancando para dentro a psicose fatal daquela sala branca.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

SEDAÇÃO



Bastavam quatro ou cinco gotas e ele sabia exatamente o que aconteceria a seguir. Viajar. Seriam alguns minutos de prazer intenso. Uma sensação de paz e tranqüilidade. Êxtase profundo. Era esperar bater. Poucas voltas do ponteiro dos segundos. O universo mudava de cor. Cores espocando diante dos olhos de uma forma que beira a diversão. Tudo é maravilhoso. A sensação de expirar todos os erros, encaixotar todos os pregos. O bem estar absoluto era possível uma vez ao dia, mas poderia ser viciante. Também não se permitiria abusar das gotas por mais que um par de calendários. Era conforto químico temporário. Para alguns perigoso. Besteira! É um químico antigo, usado por milhares de pessoas ao redor do mundo buscando uma única sensação. Sedação. Aproveite o vôo. Um alívio. Paz sintetizada. Colírio. Conforto quase imediato. Lenitivo, era a melhor sensação a cada vinte e quatro horas. Desafogo. Bem estar branco. A respiração diminuía junto com os olhos. A pressão também. O coração dançava Bob Marley. As luzes se reduzindo, um sorriso de soslaio ficou ensaiado e enfim ele pode dormir graças a altas doses de clonazepam que matavam com sabor doce, deliciosamente, todos os seus dias de ansiedade.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TAPA NA CARA

Ele levantou a mão e baixou com força, batendo de lado. Ouviu-se até um estalo . O som oco dava certeza que alguma coisa tinha quebrado. Foi uma bela porrada. Uma das pessoas que estavam em volta, espantado e quase entusiasmado disse:

- Nossa! Deu na cara dela! 

Ela do lado de lá não deixou por menos. Levantou a mão com ferocidade e usou o braço como alavanca num movimento semi circular. Acertou em cheio. Aquela coisa branca e redonda que estava vindo na direção dela voltou para onde estava.

Por uma fração de segundo ele ficou espantado. Como ela poderia ter revidado? Devolvido? Como ela tinha feito aquilo depois da pancada que ele tinha descido. Era mesmo de causar perturbação. Mas não era hora de parar por ali. Ele tinha que bater mais forte, e assim fez. Silêncio no público. Espanto geral com a violência. Susto.

Friamente ela acompanhou o movimento de cada músculo, a trajetória da mão se aproximando. A força, a raiva. As veias do antebraço vascularizadas, saltadas pela pressão do sangue. Mas para surpresa de todos, do jeito que ela recebeu aquele coice, ela devolveu com mais força, com mais raiva, com mais intensidade. Com os dentes cerrados e fazendo um esforço supremo, como talvez jamais tivesse feito na vida.

Acertou em cheio, e o silêncio foi ainda mais sepulcral. O que estava acontecendo ali era um absurdo. Uma disputa sem sentido.

Eis que a bolinha acerta a quina, e respinga de uma forma impossível de rebater. O público em volta da mesa formado unicamente pelos amigos do casal também não acredita. Ela tinha ganho pela primeira vez, em sete anos de casados, uma partida de pingue-pongue.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

BOMBA RELÓGIO

Pensou num suco de abacaxi de saco para inundar a garganta seca da boca com medo. Chegava a estalar. Sentiu os cabelos e os pelos brancos espalhados pelo corpo. Quarenta e dois verões depois jogou a idade na mochila pela primeira vez. Pesou.

Acabara de voltar do mesmo boteco onde encontrava a mesma cerveja, as mesmas conversas de homem, o mesmo sanduíche e as mesmas piadas. Os mesmos amigos. Faltavam alguns. Susto. Era difícil olhar as partidas. Era impossível viver sem as permanências.

Sentado no vaso da privada olhou no espelho atrás da porta. A cara tinha derretido. Respirou fundo e pensou na pressão. Quase explodiu outro dia que nem panela de feijão. Ia virar mais um nome na lista dos idos.

A noite estava pura, desenhada com betume e pó de vidro. Precisava soprar fumaça para parecer a cidade e para fugir do medo. Estava encagaçado. Na noite anterior achou que iria. Ficou, e foi tomar cerveja com os amigos já que não sabia ainda quanto tempo o seu relógio tinha.

A bomba do peito podia explodir. Precisava comprar um pouco de calma. Tentou chocolate na loja do tem tudo no posto de gasolina da esquina. Não tinha troco. Resolveu rolar as ruas da cidade para matar a saudade dela, que sempre fazia isso junto. Sem ela o mundo dele era um círculo sem centro. Orquestra sem maestro. Máquina sem filme.

Era seu jeito esquisito de sentir saudade.

Comeu o melhor pão com manteiga do universo. Tomou a melhor xícara de café morno que poderia ser feita, e foi dormir rezando não sabia prá quem, mas como ela tinha pedido, talvez ajudasse a deixá-lo exatamente aqui, por muito tempo.

Deitou com a cara para o teto, entrelaçou as mãos no peito, respirou fundo e fechou os olhos.